domingo, 27 de fevereiro de 2011

Vem

É negra a venda que me inibe o olhar,
Que me desorienta na minha busca incansável,
deixando-me entregue apenas ao tacto.
Sim, porque o silêncio que me rodeia faz tanto tempo ensurdece-me,
o fel dos amargurados como eu devolve à minha boca
o acre metálico dos momentos perdidos,
tão intenso que me impede de respirar.
Fico eu e o tacto.
Apenas nós.
Surda, cega, muda, talvez, exploro o que me rodeia
Em busca de formas outrora familiares
que me tragam a sensação perdida de serenidade,
a sensação de mar.
Tacteio-me, então, sentindo-me frágil.
Coberta de andrajos e remendos de vida,
com a cabeça envolta no traje dos renegados, dos abnegados,
o chão acolhe-me como se fosse o meu eterno horizonte.
E sinto-o sob mim,
gélido,
imundo,
tão diferente de ti.
Tão diferente de como te recordo no esquivo momento
em que os carrascos que carrego aqui dentro
me desvendaram e levaram à tua presença,
permitindo-me sentir-te pela primeira vez,
livre do escudo e das armas com que sempre me defendo.
Mas foi apenas um momento
aquele em que te vi para além do olhar e das muralhas por mim levantadas,
um breve momento
que me explicou o significado do sol,
do mar que sempre procuro,
do vento.
Porque logo me devolveram ao chão desta cela
onde agora te escrevo,
onde tudo o que me rodeia te é antagónico,
onde de ti apenas resta a imagem
que tento gravar em cada pedra da parede
para que nunca mais me abandone.
Se antes o meu cárcere era punição,
agora é tortura.
Porque antes apenas desejava sair daqui para ficar comigo mesma,
livre das mãos doentes deste chão, deste cheiro que cada vez mais me enlouquece.
Agora não.
Agora espero por ti,
pela tua pele,
pela tua voz,
pela negação do meu suplício.
Agora, nesta cela, estou eu e o meu tacto,
e o chão,
e a esperança de que me oiças gritar,
que sintas a minha vontade de te ter,
de que me tenhas,
e que venhas depressa libertar-me das garras da solidão.  

Susana Figueiredo, Maio/2000

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Passou por mim e sorriu

Ele passou por mim e sorriu,
E a chuva parou de cair.
O meu bairro feio tornou-se perfeito,
E o monte de entulho, um jardim.
O charco inquinado voltou a ser lago
E o peixe ao contrário virou.
Do esgoto empestado saiu perfumado
Um rio de nenúfares em flor.

Sou a mariposa, bela e airosa,
Que pinta o mundo de cor-de-rosa,
Eu sou um delírio do amor.
Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
Que o amor é curto e deixa mossa,
Mas quero voar, por favor!

No metro enlatados, corpos apertados,
Suspiram ao ver-me entrar.
Sem pressas, que há tempo, dá gosto o momento,
E tudo o mais pode esperar.
O puto do cão com o seu acordeão,
Põe toda a gente a dançar.
E baila o ladrão com o polícia pela mão,
Esvoaçam confetis no ar.

Sou a mariposa, bela e airosa,
Que pinta o mundo de cor-de-rosa,
Eu sou um delírio do amor.
Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
Que o amor é curto e deixa mossa,
Mas quero voar, por favor!

Há portas abertas e ruas cobertas
De enfeites de festas sem fim.
E por todo o lado, ouvido e dançado,
O fado é cantado a rir.
E aqueles que vejo, que abraço e que beijo,
Falam já meio a sonhar.
Se o mundo deu nisto e bastou um sorriso,
O que será se ele me falar?

Sou a mariposa, bela e airosa,
Que pinta o mundo de cor-de-rosa,
Eu sou um delírio do amor.
Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
Que o amor é curto e deixa mossa,
Mas quero voar, por favor!
Sou a mariposa, bela e airosa,
Que pinta o mundo de cor-de-rosa,
Eu sou um delírio do amor.
Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
Que o amor é curto e deixa mossa,
Mas quero voar, por favor!
Deolinda, 2010
Canção ao Lado