sábado, 31 de dezembro de 2011

Por um feliz dois mil e doze


Pode não haver grandes razões para pensar que dois mil e doze será um bom ano. Será mau, dizem-nos, será difícil, alertam. Sabemos que será, sentimo-lo diariamente. Pedem a muitos o impossível. Mas, acima de tudo, tentam destruir-nos a esperança porque se não tivermos esperança, não temos expectativas e quando não temos expectativas, a migalha que nos derem parecerá um banquete e se nos derem várias migalhas, os nossos estômagos diminuidos ficarão saciados e, como a memória é curta, tudo esqueceremos.

O que eu tenho a dizer em relação a essa ideia é o seguinte: por mais que nos digam que vai ser pior do que foi até agora, por mais que nos tirem a esperança, não podemos perdê-la. Jamais. Porque se perdermos a esperança, se perdermos a chama interior que nos motiva, que nos faz lutar na adversidade e contra ela, perdemos o que nos resta do nosso instinto. Somos seres racionais e a nossa maior força é a nossa inteligência. Como nos deixámos então ficar amorfos? Como deixámos nós de pensar por nós e passámos apenas a seguir a cabeça de outros? Temos cabeça para pensar, para questionar e sim, admirem-se, para gerar a mudança, mesmo que seja apenas uma pequena mudança. Temos que conjugar o instinto que nos leva a acreditar que tudo poderá ficar melhor com a inteligência e a racionalidade que nos permite tomar a mudança nas nossas mãos.

Dificilmente teremos uma solução para mudar as coisas no imediato. Podemos e devemos manifestar-nos, se assim o entendermos, podemos e devemos tentar participar nas iniciativas que vão surgindo para mudar alguma coisa, podemos e devermos sair de nós, da nossa pequena esfera de conforto, e juntar-nos a outros que connosco partilhem ideias ou ideais e tentar melhorar este mundo e esta sociedade podre. Não teremos resultados hoje, desenganemo-nos, mas temos que deixar de pensar apenas no hoje. Amanhã é dia. Para o ano é ano. O futuro é o futuro, para nós e para os nossos filhos e para os netos que virão um dia, e faz tão pouco sentido deixarmos o nosso futuro na mão de menos de um por cento de nós como o faz deixarmos nesses mesmos um por cento a riqueza que geramos, que produzimos com o nosso esforço, com o nosso árduo trabalho. Talvez possamos estar um pouco melhor que o vizinho do lado e, por isso, haver a tentação de pensar deixa-me estar quieto no meu canto, a fazer a minha vida, pode ser que não reparem em mim e que não me tirem o pouco que tenho. É legítimo, mas isso não pode impedir-nos de pensar - pelo menos de pensar - que se eu der a mão ao meu vizinho e se juntos nos levantarmos e tentarmos fazer algo, nem que seja pelo menos começarmos a falar um com o outro, partilharmos as nossas ideias e os nossos problemas, já estaremos a mudar algo. Seremos mais humanos e se nos aproximarmos da nossa humanidade, estaremos mais próximos de nós mesmos e, consequentemente, do controlo dos nossos destinos.  

Não está na minha natureza ser negativa. Não está na minha natureza baixar os braços. Gostava de poder fazer mais do que faço, mas sei que o pouco que faço é melhor que nada. Por isso, acredito que será um feliz dois mil e doze. Tenham esperança. Não deixem que tirem essa esperança de vós porque é quanto basta para nos dar força para fazermos com que o dia de amanhã seja um dia melhor.

sábado, 13 de agosto de 2011

Son(h)o. Ou a sua ausência.

Longa vai a noite e persistente a insónia. Esta amiga não me visitava há já algum tempo. É insónia de exaustão. 

Nas últimas noites o descanso tem-me escapado pelos dedos. Tenho sonhado como não me acontecia há mais de um ano. Quando sonho muito, demasiado, é sinal de que as minhas forças estão no fim.

Tenho tido pesadelos, daqueles que me fazem acordar aos gritos. Desses não me lembro, só sei porque me contam que os tive. Não me lembro de gritar. Não me lembro de os ter sonhado. 

Tenho tido sonhos bizarros, onde uma série de pessoas me fazem confidências sobre coisas que preferia não saber, onde choram no meu ombro, onde me seguem, onde me perseguem. Pessoas que conheço. Pessoas que não conheço. Pessoas próximas mas que estão, de algum modo, diferentes. Fisicamente. Intelectualmente. Desses vou-me lembrando, uns melhor, outros pior.

Noutros, sonho sempre com a mesma pessoa. O contexto muda, mas a pessoa é a mesma dia, após dia, após dia. Como se de algum modo estivesse a compensar a sua ausência. E esses deixam-me a pensar.

Adormeço e o meu mundo fica às avessas.

Hoje não me chega o sono. Nem os sonhos. Causa ou consequência?     

sexta-feira, 1 de julho de 2011

O que faz a (minha) vida

Um dos princípios por que tento guiar-me é o equilíbrio. É com algum esforço que tento conciliar tudo: fazer bem o meu trabalho, ser uma mãe presente, 'regar o pezinho' de uma relação que já vai em quase onze felizes anos, ter tempo para os amigos, ter tempo para mim, fazer as coisas que gosto... enfim, tirar prazer e o melhor que a vida tem para oferecer e aproveitar ao máximo as oportunidades que ela vai dando, mas sem exageros para não afectar esse equilíbrio que consegui a tanto custo.

Descobri no último ano de faculdade (ainda no século passado...) que sou mais feliz e mais realizada quando consigo fazer um pouco de tudo. Nesse ano, acabei o curso, fui jornalista, fui actriz, namorei q.b. e, com tantas actividades, descobri que é nessa diversidade que está o meu caminho. No entanto, quando comecei a trabalhar a tempo inteiro e decidi ao mesmo tempo fazer um mestrado, achei que não podia ter tempo para o resto. Impus que não poderia ter tempo para o resto, para ser mais precisa. Perdi o equilibrio, demasiado absorvida por um trabalho exigente, por um tema de tese demasiado ambicioso e por uma obsessão exagerada por essas duas áreas da minha vida. Tive a sorte de o André ser a pessoa que é. Se fosse outro, acho que me tinha mandado dar uma curva, porque eu fiquei meio doida. Mesmo. Afastei-me dos meus amigos, afastei-me de tudo, não me permitia nenhum momento de lazer e quando o fazia crescia em mim um sentimento de culpa enorme. Deixei de dormir, perdi peso e, desconfio, perdi uns anos de vida. Mas, apesar de tudo, defendi a tese, terminei o Mestrado e estabilizei a minha vida no emprego. Quando passei a ter tempo livre, estava tão exausta que não me apetecia fazer nada para além de vegetar no sofá. E assim passei mais um ano, a vegetar, sem uma actividade para além do trabalho, sem querer sair, sem querer nada de nada. No fundo, passei do oito ao oitenta. Foram momentos difíceis. Muito difíceis.

Mas nada como uma grande mudança para pôr a vida em perspectiva. Quando fui mãe, tudo se voltou a compor na minha cabeça. Parece que saí de uma longa amnésia e que, finalmente, cheguei à conclusão que já havia alcançado seis anos antes: para ser feliz terei que conseguir encaixar no meu tempo tudo aquilo que gosto de fazer. Tinha vinte e oito anos nessa altura. Sorte a minha, poderia ter saído da amnésia aos oitenta anos... 

A partir daí comecei, muito pela necessidade de conciliação que um filho implica, a gerir melhor o meu tempo. Passei a ser mais eficiente no trabalho, a pensar na maneira melhor e mais rápida de fazer as coisas, a optimizar tarefas, a descomplicar. Passei a ter um horário mais fixo de saída e não foi o fim do mundo. O trabalho sempre apareceu feito, com maior qualidade que anteriormente - no periodo obsessivo -, e eu passei a sentir-me mais realizada. Consegui quebrar o ciclo vicioso em que tinha entrado uns anos antes. Com o passar do tempo, comecei a redescobrir-me. Voltei ao ginásio, que antes da "grande obsessão" frequentava religiosamente, voltei a ter vontade de sair, comecei a interessar-me mais e mais por desenvolver aptidões novas, a criar, a ler compulsivamente. Mais tarde, voltei a escrever como fazia antes, voltei à minha paixão de sempre. E, mais do que isso, reaproximei-me dos meus amigos, em particular da minha melhor amiga que, apesar da minha fase difícil nunca desistiu de mim (obrigado! obrigado!). Procurei recompensar o André pela sua infinita paciência. No fundo, deixei de perder tempo com o pensamento recorrente de que tinha que mudar (é assustador rever as poucas coisas que escrevi nesses anos, quase todas nesse sentido) e mudei realmente. 

É por isso que os meus dias me dão uma satisfação tremenda, mesmo que impliquem uma enorme disciplina para fazer tudo aquilo a que me proponho. É que não há nada como acordar a Cat com uma brincadeira, rir com ela de manhã, ser eu a deixá-la na escola e não delegar essa tarefa a ninguém, ir encostada ao meu grande amor no autocarro (mesmo que ele vá a dormir e eu a ler), começar o dia a analisar o que se passa no mundo, a aplicar aquilo para que tanto estudei, a trocar ideias com as minhas colegas - com quem formo uma equipa de que me orgulho muito -, a trabalhar com prazer, a escutar e a ser ouvida. E gosto de poder aproveitar a hora de almoço para estar com algum amigo ou amiga, para ir ao ginásio ou para ir tirar fotografias e dar um passeio, porque depois volto com mais vontade de continuar. E é bom poder sair e ir buscar a minha filha, conversar com ela, saber como lhe correu o dia, brincar com ela, dar-lhe banho, fazermos o jantar juntas, sentarmo-nos os três à mesa a conversar (estou aqui a ignorar todos os ralhetes à hora da refeição...) e a contar o nosso dia, contar-lhe histórias, fazer vozes estranhas e dizer disparates. E, depois disso, é bom podermos estar os dois, juntos se quisermos, separados se nos apetecer, ele com as pinturas, eu com os meus blogues, as minhas escritas, os meus colares, as minhas fotografias, as minhas malas, enfim, com aquilo que a inspiração do momento ditar.  

Sou feliz. Mesmo. E já não tenho aquele sentimento destrutivo de insatisfação permanente comigo mesma e com a minha vida. Gosto de mim. Gosto daquilo que sou, daquilo que consigo fazer. Gosto de ser capaz de perceber de economia e de mercados financeiros, de perceber minimamente de política, de adorar estatística, de estar nas sete quintas quando tenho que trabalhar séries numéricas, mas também de saber coser à máquina, de fazer colares, de fazer compotas, de me aventurar a fazer os meus próprios cremes e sabonetes, de ter uma horta na varanda ou de andar com uma mala feita por mim. Gosto de ser a mãe que sabe como correu o dia da filha, que conhece as suas amigas, que fala com a professora, que brinca, mas que também sabe ser severa e que educa. Gosto de saber que faço por merecer o amor que o meu amor me dá. Gosto de falar com a minha avó todos os dias e de ouvir as suas conversas intermináveis (há que aproveitar enquanto ela está por cá, ela que é a minha outra mãe), gosto de estar com o meu pai aos fins-de-semana naqueles almoços que ele adora, gosto de me meter com a minha mãe nas suas lides virtuais (sempre com pena de estarmos tão longe), gosto de estar com os meus melhores amigos ao fim-de-semana, de manter contacto com pessoas que estão na minha vida há anos ou que entraram nela apenas recentemente. Gosto de escrever e de fotografar e gosto de ter estes três (.) (.) (.) espaços onde posso fazer essas duas coisas. Gosto de procurar coisas novas, descobrir coisas novas, experimentar coisas novas. Gosto de ler artigos de economia durante o fim-de-semana. Não faz mal se têm a ver com trabalho. Não me importo de trabalhar em casa se puder ter a minha família por perto. Se puder interromper para contar uma história, para dar um beijo, para trocar uma palavra. Estar ali, com eles, mesmo que a trabalhar.

Como tenho tempo para tudo? Não sei, acho realmente que o tempo é o que fazemos com ele. Eu só tento preencher a minha vida com coisas que me dão prazer e tirar prazer das coisas que preenchem a minha vida.

Porque é que estou a escrever isto hoje? Porque hoje foi um bom dia. Estou em São Paulo e apresentei hoje um trabalho que fiz juntamente com as minhas colegas de todos os dias. Somos uma equipa demasiado pequena para o volume de trabalho que temos, mas todas gostamos do que fazemos e gostamos de trabalhar juntas e essa é a nossa força. Fizemos este trabalho gigantesco a seis mãos e coube-me vir apresentá-lo. Foi um voto de confiança que recebi e uma grande responsabilidade. Afinal, não vim mostrar apenas o meu trabalho, mas o trabalho de todas nós. Elas foram incansáveis e o último mês foi muito duro para todas. Estou feliz porque correu bem. Muito bem. Era um momento importante para as três e eu acho que estivemos à altura. E isso significa que somos uma boa equipa. Isso significa também que consegui ser merecedora da confiança que depositaram em mim.

Para além disso, estou feliz porque consegui provar a mim mesma, uma vez mais, que é possível conciliar tudo. Que a minha felicidade está na diversidade. E que o princípio do equilíbrio é "o" princípio. Pelo menos para mim. Pelo menos para a minha vida. 

terça-feira, 19 de abril de 2011

O louco

I

A perfeição.
O objectivo de cada instante
O motor de tudo mais
Na busca eterna,
insaciável,
incansável,
na busca pela perfeição
o louco inicia a sua marcha
Devagar, tacteia prudentemente o caminho
À medida que avança,
O louco sabe até onde pode ir
sabendo também que não será mais perfeito
do que já é
porque é humano.
No entanto, prossegue.
Os passos do louco são cuidados.
Ele saboreia a viagem.
Sente o sol, 
o seu derradeiro raio a tocar-lhe no rosto
não deixando de saber que se der um passo
mesmo que imperceptível
um pequeno passo em frente,
entra nas trevas.
Invariavelmente, o passo é dado
E o louco sente, impotente, que perdeu uma vez mais
Que é, de novo,
o eterno derrotado da sua inexequível luta.

II

Quando o louco passa a barreira
sente o seu senso, transformado em ar e sangue, a fugir.
Os pulmões ficam plenos de um ar viscoso
que deixa de ser ar.
As veias esvaziam-se de sangue deixando um nada
que passa a estar repleto de medo.
A inércia é atroz.
Todos os músculos se tolhem.
E o louco debate-se sem um único movimento.
Porque nada mais pode conseguir.
Numa luta que já não é sua.
Então vem o pânico.
Pânico de ver que o que está para além da porta
É o menos perfeito que já alcançara
É o mais podre.
E, então, tudo se desmorona.

III

Da boca solta-se um uivo de dor.
Da pele nada mais fica do que frio.
Do olhar morre toda a esperança.
Do ouvir, apenas o som da derrota.
Do sentir, nada.
E então o louco precisa sentir,
Ouvir mais do que despojos de guerra
Olhar para um outro horizonte.
A pele tem que estar quente.
A dor tem que estar na pele,
na carne,
na matéria.
E é então que o louco transforma a inércia em raiva.
Em ódio.
Numa punição de si mesmo.
Até doer.
Até sentir.
Até voltar a ser.

IV

E, então, o louco sossega.
Sabendo, porém, que tentará novamente.


Susana Figueiredo, 2004

sábado, 19 de março de 2011

Os tempos em que vivemos

Trabalho há onze anos. Nos primeiros três - quase quatro - fiz estágios, passei recibos verdes, dei explicações para poder equilibrar um salário baixo e pagar as contas, estive um mês e meio sem emprego, enviei uns noventa curriculos nessa altura, tive que aceitar outro estágio, apesar de ter mais de dois anos de experiência... no fundo, fui precária. É claro que tudo teria sido mais fácil se me tivesse mantido em casa dos meus pais, mas não me fazia sentido aos vinte e três anos não ser independente. Fiz o que estava ao meu alcance para lutar por essa independência, passei mesmo por algumas dificuldades, mas consegui. Quando me casei, as coisas tornaram-se um pouco mais fáceis, mas havia sempre um sentimento de insegurança que advinha do facto de estar sempre na corda bamba, e esse sentimento só passou quando entrei para os quadros de uma empresa. Porquê?

As razões de cariz financeiro são as mais óbvias. Ter estabilidade financeira torna possível coisas tão simples como não ter dúvidas se vamos conseguir pagar a renda ou a electricidade ou tão complexas como decidir ter filhos. É que as necessidades básicas de uma criança - saúde, alimentação, educação - não se extinguem no tempo de duração de um contrato a termo certo. Se tomar a decisão de ser independente numa situação mais precária é relativamente simples, quando temos alguém a depender de nós para sobreviver, aí já não pode ser uma escolha tão linear.  

Há também razões ligadas à evolução pessoal e intelectual. Quando estudamos, ganhamos competências para fazer melhor, para inovar, para encontrar novas soluções para problemas. Estudar ensina-nos a pensar, a ver outras perspectivas, a analisar. É por isso que devemos estudar. Devemos ler. Devemos querer saber mais. É por isso que devemos estudar sempre. Quando trabalhamos, por outro lado, aplicamos essas competências que ganhámos nos livros e nas salas de aula. No fundo, aprendemos a fazer. E aprenderemos tanto mais e faremos tanto melhor quanto maior for a responsabilidade que nos é dada (atenção, responsabilidade é uma coisa, um cargo é outra bem diferente e é à primeira que me refiro). É uma questão de evolução, de aumento de complexidade, no fundo de aplicação do nosso investimento em conhecimento. Ter um emprego onde possamos crescer dá-nos isso. Não tem que ser um emprego para toda a vida, não é isso que defendo. Defendo é que ter um emprego com validade de um ano, ou dois ou três não nos permite crescer e não permite às empresas e ao país crescer também. Todos perdemos, no fundo.

Na geração dos meus pais, há muitas pessoas que não tiveram qualquer possibilidade de se qualificar. A minha geração é diferente: teve acesso à escola pública, às universidades públicas, a politécnicos. Em muitos casos, com o apoio financeiro e o incentivo dos pais. Os que nasceram nos anos oitenta, que são os que estão agora a entrar (ou não) no mercado de trabalho,  tiveram ainda mais acesso e mais incentivo do que os que nasceram nos setenta, como eu. No fundo, nestes trinta anos, houve de facto um esforço de universalização do ensino, o que nos torna sem dúvida na geração mais qualificada de sempre no nosso país. Como tal, na geração que tem mais condições para desempenhar trabalho técnico, inovador. Diria mesmo, na geração com maiores ferramentas para ser empreendedora. É por isso natural que tenha dificuldade em perceber porque é que em trinta anos este país - e por país quero dizer todos nós, as nossas empresas, os nossos políticos, os nossos decisores - não foi capaz de criar as condições para usufruir devidamente do seu capital humano e avançar no seu desenvolvimento.

Parece-me haver várias razões para isso. Começo pelas universidades e o Estado, cada um com a sua parte de culpa na oferta de cursos que não está adequada ao mercado de trabalho que temos - poucas vagas em cursos que permitiriam formar profissionais em áreas onde temos maior escassez, a contrastar com outros que formam centenas de alunos todos os anos sem que haja um mercado de trabalho com capacidade de os absorver até  cursos com poucos alunos e médias de nove vírgula seis valores -, por currículos mal construídos, por facilitismo na formação e por uma inadequada orientação para a vida profissional. Há também os empresários portugueses que, de uma maneira geral (é claro que há muitas excepções), não investem, não inovam, não planeiam. Pensam a curto prazo, presos a um modelo de gestão de antigamente. Pensam apenas no custo de ter ideias e de ter massa crítica para as pôr em prática, não no seu benefício. Não se promovem, não fazem com qualidade, não estimulam. Ignoram a importância da investigação e do desenvolvimento para o seu negócio, a maior parte das vezes porque é um investimento sem resultados imediatos. Vivem segundo uma filosofia em que não tem que haver responsabilidade social, em que não tem que haver ética. Não são todos. Mas ainda são demasiados.

E há as próprias pessoas. Como eu já disse, devemos saber sempre mais, estudar sempre mais. Mas também temos que perceber o que estudamos, em que é que vamos investir o nosso tempo. Há cursos e cursos e quando se escolhe um curso é preciso haver capacidade de perceber o que vamos fazer com ele. Não quero dizer com isto que haja áreas do saber menos nobres, quero dizer que é importante perceber se quando acabarmos o curso vamos ter capacidade de aplicar esse saber ou se vai ser apenas um diploma que vai ficar na prateleira. Ou, melhor ainda, se vamos ter a capacidade de pegar no nosso conhecimento e sermos nós próprios inovadores. É que o salto qualitativo que um país pode dar depende de inúmeras variáveis, entre elas a capacidade de arriscar e de mudar.

Isto tudo para dizer que estamos perante um problema que é transversal e que tem de ser resolvido por toda a sociedade. Os políticos que temos tido nos últimos anos, da esquerda à direita, têm substituido o debate construtivo de ideias pela mera retórica e o dever de servir o país pelos seus objectivos pessoais e de ascenção na máquina partidária. Os empresários da velha guarda, quer o sejam por idade ou por filosofia, continuam presos ao paradigma do salário baixo e do trabalho pouco qualificado. Ao aproveitamento de situações de precaridade. A minha geração, eu incluída, ainda arrisca pouco, inova pouco, não luta o suficiente, não coopera, é demasiado individualista. No fundo, a única saída deste labirinto em que nos encontramos terá que passar pela mudança da mentalidade de todo um país. Para isso, é necessário que todos, mas todos mesmo, entendamos que é necessário debater, é necessário sair de casa, arregaçar as mangas, deixar de esperar que outros façam por nós, assumir uma posição mais interventiva na sociedade, nas empresas, abraçar causas, lutar por elas, cumprir o nosso dever para com os nossos pais e para com os nossos filhos, o dever de tentar fazer mais e melhor, não só no trabalho, mas pelo nosso país e pelo nosso povo.  Não ter medo de mudar as coisas.

No dia doze de Março algo assim aconteceu. Não se fez para já uma mudança, essa levará o seu tempo. Mas plantou-se a semente. Por tudo aquilo que escrevi e que defendo, não podia deixar de estar lá. E de registar o momento.     

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Vem

É negra a venda que me inibe o olhar,
Que me desorienta na minha busca incansável,
deixando-me entregue apenas ao tacto.
Sim, porque o silêncio que me rodeia faz tanto tempo ensurdece-me,
o fel dos amargurados como eu devolve à minha boca
o acre metálico dos momentos perdidos,
tão intenso que me impede de respirar.
Fico eu e o tacto.
Apenas nós.
Surda, cega, muda, talvez, exploro o que me rodeia
Em busca de formas outrora familiares
que me tragam a sensação perdida de serenidade,
a sensação de mar.
Tacteio-me, então, sentindo-me frágil.
Coberta de andrajos e remendos de vida,
com a cabeça envolta no traje dos renegados, dos abnegados,
o chão acolhe-me como se fosse o meu eterno horizonte.
E sinto-o sob mim,
gélido,
imundo,
tão diferente de ti.
Tão diferente de como te recordo no esquivo momento
em que os carrascos que carrego aqui dentro
me desvendaram e levaram à tua presença,
permitindo-me sentir-te pela primeira vez,
livre do escudo e das armas com que sempre me defendo.
Mas foi apenas um momento
aquele em que te vi para além do olhar e das muralhas por mim levantadas,
um breve momento
que me explicou o significado do sol,
do mar que sempre procuro,
do vento.
Porque logo me devolveram ao chão desta cela
onde agora te escrevo,
onde tudo o que me rodeia te é antagónico,
onde de ti apenas resta a imagem
que tento gravar em cada pedra da parede
para que nunca mais me abandone.
Se antes o meu cárcere era punição,
agora é tortura.
Porque antes apenas desejava sair daqui para ficar comigo mesma,
livre das mãos doentes deste chão, deste cheiro que cada vez mais me enlouquece.
Agora não.
Agora espero por ti,
pela tua pele,
pela tua voz,
pela negação do meu suplício.
Agora, nesta cela, estou eu e o meu tacto,
e o chão,
e a esperança de que me oiças gritar,
que sintas a minha vontade de te ter,
de que me tenhas,
e que venhas depressa libertar-me das garras da solidão.  

Susana Figueiredo, Maio/2000

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Passou por mim e sorriu

Ele passou por mim e sorriu,
E a chuva parou de cair.
O meu bairro feio tornou-se perfeito,
E o monte de entulho, um jardim.
O charco inquinado voltou a ser lago
E o peixe ao contrário virou.
Do esgoto empestado saiu perfumado
Um rio de nenúfares em flor.

Sou a mariposa, bela e airosa,
Que pinta o mundo de cor-de-rosa,
Eu sou um delírio do amor.
Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
Que o amor é curto e deixa mossa,
Mas quero voar, por favor!

No metro enlatados, corpos apertados,
Suspiram ao ver-me entrar.
Sem pressas, que há tempo, dá gosto o momento,
E tudo o mais pode esperar.
O puto do cão com o seu acordeão,
Põe toda a gente a dançar.
E baila o ladrão com o polícia pela mão,
Esvoaçam confetis no ar.

Sou a mariposa, bela e airosa,
Que pinta o mundo de cor-de-rosa,
Eu sou um delírio do amor.
Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
Que o amor é curto e deixa mossa,
Mas quero voar, por favor!

Há portas abertas e ruas cobertas
De enfeites de festas sem fim.
E por todo o lado, ouvido e dançado,
O fado é cantado a rir.
E aqueles que vejo, que abraço e que beijo,
Falam já meio a sonhar.
Se o mundo deu nisto e bastou um sorriso,
O que será se ele me falar?

Sou a mariposa, bela e airosa,
Que pinta o mundo de cor-de-rosa,
Eu sou um delírio do amor.
Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
Que o amor é curto e deixa mossa,
Mas quero voar, por favor!
Sou a mariposa, bela e airosa,
Que pinta o mundo de cor-de-rosa,
Eu sou um delírio do amor.
Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
Que o amor é curto e deixa mossa,
Mas quero voar, por favor!
Deolinda, 2010
Canção ao Lado

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Solidão

Caminho devagar, diluindo-me na multidão de cores e cheiros da rua
Nem mais, nem menos que outros, eu mesma
Igual a eles.
Olhos fitos num ponto do horizonte, que desejo alcançar a cada momento
Porque só ele importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
Um ruído, meio sussurro, meio estrondo, não sei, fez-me desviar o olhar
Para uma porta.
Ali, no meio, ignorada por todos os outros olhos que apenas fitam o seu ponto
Porque só ele importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
A porta é invisível , penso.
A porta é invisível?, pergunto.
Silêncio.
Os ouvidos também fitam o ponto.
Porque só ele importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
Vou entrar, grito, num grito mudo para os ouvidos que fitam o ponto.
E entro.
E saio do outro lado, vendo a mesma rua, a mesma multidão, as mesmas cores.
Cheirando o mesmo cheiro.
E procuro o meu ponto.
Não o encontro.
Porque ele já não me importa. Ali. Àquela hora. Nunca mais.
Estou livre para olhar em volta
E olho. Com atenção.
A multidão desfaz-se. Fica uma só pessoa. Uma cor. Um cheiro.
É quem importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
Outra pessoa, e outra, e outra.
A cada qual um cheiro e uma cor.
Apenas um cheiro e uma cor. Nada mais.
E não fica ninguém.
Só as pedras azuis e brancas da calçada. E eu.
Olho-as, pela primeira vez, na rua deserta.
E um prédio antigo. E uma janela.
Como quero estar naquela janela.
Porque só ela importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
E da janela vejo a rua.
Sem multidão.
Apenas a rua.
E vejo-me, lá em baixo, nua, fria, sem cor, sem cheiro, sem nada.
A correr para a porta, desesperada.
E ela fechada, trancada por fora.
Dor. Nada.
Porta. Nada.
Eu. Nada.
Rua. Agora deserta. Sem porta. Só a calçada.
E eu, eu?, na janela.
Janela. Nada.
Porque só ela importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
A solidão.

Susana Figueiredo, Janeiro/1999

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Alienação

A minha avó tem oitenta e dois anos. Faz oitenta e três em menos de um mês. Como é normal nestas idades, padece de maleitas várias, umas mais impeditivas do que outras; a principal, extremamente dolorosa. Custa-lhe andar. Custa-lhe mexer os braços. Custa-lhe muita coisa. Ainda assim, a minha avó mexe-se. Faz a vida dela, todos os dias. Paga as suas contas. Gere a sua casa. Recusa muitas (demasiadas) vezes ajuda. Não é especialmente instruída mas faz questão de se manter informada: sabe o que se passa no mundo, no seu país, na sua rua, na sua família. No seu coração.

A minha avó nasceu em mil novecentos e vinte e oito. Como tal, sabe o que é a guerra. Sabe o que é a ditadura. Sabe o que é não poder ter voz. Sabe o que é ter poucos ou nenhuns direitos. Sabe o que é voltar a tê-los. Sabe que lutar é difícil, duro, demorado, mas que dá frutos. Sabe que se é difícil ganhar direitos, pode ser muito fácil e rápido perdê-los. Sabe, por isso, o que é a cidadania, o dever cívico. 

A minha avó sabe também o que é viver com uma pensão. O que é gastar uma grande fatia da mesma em medicamentos. O que é o aumento dos impostos, a redução das comparticipações, as taxas moderadoras. Sabe o que é a crise porque a sente mais do que muitos de nós. E porque já passou por várias e por coisas que nem conseguimos imaginar. Em oitenta e dois anos, sabe certamente o que são políticos tiranos, políticos prepotentes, políticos levianos, políticos irresponsáveis. E alguns políticos, poucos, que fizeram a diferença.  

Acima de tudo, a minha avó, que sabe como é não ter liberdade, que sabe como é devastador o silêncio de um povo, que sabe o que custa não poder expressar o seu descontentamento, vota sempre. Porque não votar até pode ser uma forma de protesto mas é, acima de tudo, uma forma de alienação. Ontem, mesmo com oitenta e dois anos, mesmo sabendo que o seu voto dificilmente faria a diferença perante um desfecho que já era esperado, mesmo com seis graus de temperatura, mesmo com um vento inclemente, fez questão de ir votar. Como sempre faz. Eu levei-a, mas se não tivesse levado sei que ela iria à mesma, pois se falhasse em cumprir esse que é tanto um dever como um direito tão arduamente conquistado, não dormiria com a sua consciência tranquila.

A minha avó tem, aos oitenta e dois anos, lucidez para perceber que os direitos e a liberdade arduamente conquistados pelos povos em todo o mundo ao longo da história são um dos bens mais preciosos que podemos ter. Tem lucidez para perceber que se os alienarmos e que se nos alienarmos podemos perdê-los. Novamente. E rapidamente. E essa percepção de algo tão básico sobrepõe-se à dor, à doença, à preguiça ou à resignação. 

Perante isto, perante alguém que teria tantas razões para ter ficado ontem em casa, gostava mesmo muito de saber qual é a desculpa de mais de cinco milhões de pessoas para terem optado por não ir votar. Por se alienar. Por ficar em silêncio. E por arriscar perder esse direito.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Vácuo

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Susana Figueiredo, Janeiro/2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Naquele café...

O café, que costuma acolher os novelos infindáveis das conversas de velhas senhoras, os silêncios de casais de muitos ou poucos anos, as bocas lambuzadas das crianças a quem as avós não sabem dizer não, tinha hoje outro público. Velhos, novos, assim assim, todos de cabeça erguida para a televisão pendurada na parede, com o fundo verde que é uma presença constante onde quer que se veja uma densidade tão grande de homens por metro quadrado. Mas o que me prendeu a atenção foi o casal adolescente que conversava e ria numa mesa, com o alheamento próprio que o amor e a novidade trazem consigo. Homens, sozinhos, a ver o amor de uma vida a rolar na televisão. Rapaz e rapariga, juntos, a viver o amor do momento. Mesmo que acabe amanhã. 

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Cidade Devoluta

Cidade.
Casas.
Gente.
Conversas de vizinhas.
Vidas.

Cidade.
Casas com dono ausente.
Mas ainda com gente.
Lamentos de vizinhas.
Vidas.

Cidade.
Casas que se desfiguram.
Gente envelhecida.
Lágrimas de vizinhas.
Vidas.

Cidade.
Casas que se emparedam.
Porque já não há gente.
Nem vizinhas.
Nem vidas.

Susana Figueiredo, Janeiro/2011

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Lisboa e Tu

Hoje partilhámos Lisboa.
Hoje Lisboa partilhou-te comigo.
Foi estranho ter-vos juntos.
O meu amor eterno.
A minha paixão mais recente.
Ambos ali.

Complementam-se, digo-te.
As suas formas, a tua esqualidez,
a sua luz, as tuas trevas.
O seu esplendor colorido,
O teu sóbrio recato.

Lisboa.
Dela brotam palavras,
letras que me fervilham nas mãos.
Sons, cheiros que me alvoroçam.
A simplicidade que me tira o fôlego,
que me trava o sangue.
A exaltação.

Tu.
O teu profundo silêncio.
As tuas muralhas, os teus caminhos sinuosos.
Tu,
que me exiges olhos,
boca,
pele,
os seis sentidos, enfim.
Tu,
A complexidade que me dá a certeza
de querer transpor as tuas paredes,
percorrer os teus trajectos
com a calma que uma luta requer.

Lisboa e Tu.
Numa tarde de Verão.

Pudesse existir a perfeição de um momento
e longe dela não andaria.
Porque esta ficará certamente gravada,
mesmo que as palavras se percam,
no meu livro de memórias.



Susana Figueiredo, Julho/1999

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Inusitadamente...

Há prazeres inesperados... o melhor momento do meu dia foi sem dúvida os quarenta e cinco minutos que decorreram desde que entrei na auto-estrada seis até chegar a Valverde. Com a Catarina a dormir no banco de trás, o compasso da sua respiração pesada e o som das rodas no asfalto, pude ficar comigo e com os meus pensamentos, a apreciar a estrada e o breu da noite. Já mais perto do meu destino, tive que percorrer duas pequenas estradas ladeadas por sobreiros. A luz dos faróis naquelas folhas dá-lhes um ar quase etéreo, aprofundado pela ausência de tudo o mais à sua volta. De som. De cor. De gente. Um pequeno arrepio percorre-me sempre a espinha quando atravesso esta estrada, numa reminiscência de alguns filmes mais atemorizadores, mas reconforto-me por estar num espaço pequeno e quente, protegida de qualquer improvável acontecimento no exterior... falta-me sempre a coragem para parar o carro, sair e apreciar o momento. Mas sei que vou adorar o dia em que conseguir fazê-lo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A janela

Da paragem de autocarro à minha casa são cerca de dez minutos a pé pela zona mais antiga de Queijas, que é habitada pela população idosa da vila. Há uma velha senhora que deve ter já muito pouca mobilidade e que vive num dos vários rés-do-chão por que passo no caminho. Essa senhora, de rosto afável apesar da possível doença de que sofre, gasta - pelo menos - os seus fins de tarde sentada ao pé da janela, a observar os que passam. São momentos tão mais breves quanto mais rápidas as passadas do transeunte. Mas, para ela, é a diferença entre a tristeza e a alegria, pois a velha senhora sorri sempre se olharmos para ela. E eu olho, porque uma das boas coisas da vida neste mundo-cão é receber um sorriso bondoso de um desconhecido. E retribuo o sorriso.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Solo

Passo as minhas mãos pela lisa superfície que é a tua alma
Dela, sinto apenas o áspero roçagar da fina camada de areia que a cobre
Da areia que esconde qualquer porosidade, qualquer imperfeição
Como nada sinto, penso partir
Mas um súbito e inusitado cansaço faz jazer o meu corpo sobre ela
E escutar
Apenas oiço um vago murmúrio, tão distante como as profundezas da terra
Presto atenção
Parece uma voz que me traz palavras sumidas
E tambores
E silêncio
E novamente a voz, agora mais clara
E silêncio.

Ainda deitada, tento afastar a areia
e percebo que o solo, apesar de endurecido pela seca
se desfaz com a força dos meus dedos
Lentamente...
De gatas, raspo-o vigorosamente e tento escutar
Apenas silêncio.
Mas sei que não adormeci e que a voz é real
Os tambores ainda ecoam em mim e abafam o insuportável som desse silêncio
Continuo a escavar, freneticamente, agora com as mãos
Sinto as pedras a cortarem-me os dedos e a terra a entranhar-se nas feridas
Não me importo porque apenas quero voltar a ouvir
E por isso falo
Por isso chamo-te pois essa voz e os tambores e o cru silêncio só podem ser teus
E escuto.
E silêncio.
E acredito que se for mais fundo conseguirei ouvir-te
Ou, pelo menos, que me oiças.

Assim escavo, o sangue a escorrer dos meus braços
Que ardem embora eu não sinta
Porque só me interessa ouvir
Ouvir-te
E escuto novamente
No silêncio, surge um murmúrio
Eu estou mais perto, mas ele, mais longínquo.

E, num último fôlego, encontro-o
Não tu, mas o teu esconderijo
Do qual já fugiste
E onde ficou apenas o teu cheiro
E o teu silêncio.
Os quais tento abraçar
E beber
E sentir
Mas não consigo pois são tão etéreos quanto tu te tornaste
E por isso desisto
Suja e ferida, refaço o meu caminho
Deixando no chão as marcas da minha presença.


Susana Figueiredo, Abril/2008

sábado, 1 de janeiro de 2011

Recomeçar...

Embora o meu ano novo comece a 7 de Outubro, quando completo mais um ano de vida e começo outro novinho em folha, não deixo de gostar da mudança de ano no calendário. Há sempre esperança no ar, mesmo nos momentos difíceis, e a sensação de uma agenda cheia de folhas imaculadas por escrever e ainda a cheirar a tinta. E o primeiro dia do ano é sempre um bom dia, calmo, sem pressas... ainda por cima, costumo começá-lo com os melhores dos amigos, a partilhar comida, risos, histórias e tempo. É bom, mesmo muito bom...